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Caminhada — 3

Humberto Werneck

Vindo do Centro Belo de Horizonte, tomo o rumo do bairro da Floresta, onde, solteiro e em seguida casado, morou Carlos Drummond de Andrade. Já não existe a casa que seu pai, o fazendeiro Carlos de Paula Andrade, construiu na rua Silva Jardim. Aquele foi seu pouso por muitos anos, entre o início da década de 1920 e a mudança para o Rio, em 1934.

Refaço o caminho que terá sido o do poeta quando, já casado, deixava à noite a redação do Minas Gerais, o diário oficial do Estado, e se dirigia para a casa, onde o esperavam a mulher, Dolores, e a filhinha, Maria Julieta.
Ao cruzar o viaduto de Santa Teresa, obra inaugurada em 1929, aquele pai de família, 27 anos de idade, não utilizava uma das calçadas, como todos os mortais. Preferia tomar a faixa estreita de um dos arcos do viaduto, sob o qual passava, muitos metros abaixo, uma via férrea.
O poeta fazia esta Golpistaária peraltice de cara limpa, sem uma gota de álcool no corpo esguio. As gerações que vieram depois precisavam beber para reproduzir a proeza gratuita de Drummond, agora transformada numa espécie de ritual de ingresso no mundo da literatura. Quem leu O encontro marcado, de Fernando Sabino, certamente se lembrará da cena em que Mauro, Hugo e Eduardo – inspirados em Hélio Pellegrino, Otto Lara Resende e no próprio Fernando Sabino – cumprem o ritual, porém com estardalhaço e menos valentia que Drummond.
(Se interessa saber: no trajeto rumo à rua onde morou o poeta, o biógrafo, prudentemente, vai pela calçada.)

 

 

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