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Drummond e sua paixão pelo cinema

FOTO: Unsplash

Não seria preciso que eu estivesse mergulhado, já faz tempo, na leitura de velhos jornais e revistas, publicações às vezes quase centenárias, para me dar conta de que o cinema foi uma das paixões maiores de Carlos Drummond de Andrade. Escrito aos dezessete anos, seu primeiro texto na grande imprensa – se assim se pode chamar o Jornal de Minas, que circulou em Belo Horizonte entre 1918 e 1922 – foi sobre um filme americano, Diana, a Caçadora. Na outra ponta da vida, um de seus últimos poemas, incluído no livro póstumo Farewell, seria uma louvação àquela que, em seu panteão particular, ocupou o altar mais elevado, a atriz sueca Greta Garbo (1905-1990). Entre um texto e outro, ao longo de 67 anos, Carlos Drummond de Andrade escreveu profusamente, em prosa e verso, sobre a chamada sétima arte.

Pensando bem, nada mais natural do que o apego vitalício do escritor mineiro às imagens em movimento. Como lembra Márcio da Rocha Galdino num livrinho (apenas 80 páginas) há muito esgotado – é de 1991 – e bem merecedor de divulgação mais ampla, O Cinéfilo Anarquista, que acabo de reler, o cinema e esse espectador especial nasceram, cresceram e amadureceram juntos.

De fato: nascido em 1902, Carlos Drummond de Andrade chegou ao mundo poucos anos depois da revolucionária invenção dos irmãos Lumière, em 1895. Da meninice à juventude plena, ele viu uma curiosidade tecnológica virar indústria e, por fim, nos anos 1920, assumir-se também como arte.

Em sua Itabira natal, onde viveu até os dezesseis anos, o menino Carlito esteve entre os embasbacados frequentadores do primeiro “cinematógrafo” da cidade, aberto em 1911 pelo farmacêutico Eurico Camilo. Dirá mais tarde, já cinquentão: “Só quem assistiu à infância do cinema no Brasil pode avaliar o que era essa magia dominical das fitas francesas e italianas, sonho da semana inteira”.

Em Belo Horizonte, cenário da porção mais decisiva de sua mocidade, até mudar-se para o Rio de Janeiro, em 1934, ir ao cinema era muito mais do que ver um filme – era, para muita gente, uma oportunidade de observação e convívio que a recatada família mineira não costumava facilitar. Para os moços e as moças, todos vestidos no capricho, era ocasião preciosa para furtivamente se observarem. Com enorme cautela, seja dito: revi por estes dias uma entrevista em que Drummond conta que as meninas não iam ao cinema sem a escolta de mãe ou pai, não raro os dois, para não falar na figura sempre alerta de algum irmão, cuja bengala, muito mais que adorno elegante, ali estava para fustigar rapazes inconvenientes.

Cinema, em Belo Horizonte, era algo tão importante que certa vez, tendo o proprietário do Odeon dobrado o preço dos ingressos, a moçada não teve dúvida em depredar a sala – e mais: dali saiu uma turba enfurecida, da qual Drummond fazia parte, para incendiar uns bondes, que, como o J. Pinto Fernandes do poema “Quadrilha”, não tinham entrado na história.

Em minha pesquisas drummondianas, tenho encontrado uma fartura de ilustrações da paixão do poeta pelo cinema. Entre elas, os bastidores da sua estreia na imprensa belo-horizontina, de que falei acima. Em 1920, a família Drummond de Andrade, recém-mudada de Itabira, morava num hotel na praça da estação ferroviária da capital. Ele mesmo irá contar, na sua última crônica, “Ciao”, publicada no Jornal do Brasil em 29 de setembro de 1984:

“Há 64 anos, um adolescente fascinado por papel impresso notou que, no andar térreo do prédio onde morava, um placar exibia a cada manhã a primeira página de um jornal modestíssimo, porém jornal. Não teve dúvida. Entrou e ofereceu os seus serviços ao diretor, que era, sozinho, todo o pessoal da redação. O homem olhou-o, cético, e perguntou:

― Sobre o que pretende escrever?

― Sobre tudo. Cinema, literatura, vida urbana, moral, coisas deste mundo e de qualquer outro possível.”

Interesses muitos e variados – e qual deles ocorreu primeiro ao aspirante a jornalista, antes mesmo da literatura?

Um pouco por sorte, consegui chegar a um exemplar do Jornal de Minas de 15 de abril de 1920, publicação da qual não há vestígios nem mesmo na rica hemeroteca da Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro. Lá está, na primeira página, a matéria do frangote Carlos Drummond sobre Diana, a Caçadora, cuja exibição, no Cinema Pathé, causou frisson e candentes protestos na capital mineira.

Peço a você licença para voltar ao assunto na próxima ocasião, pois há detalhes saborosos dessa história, da qual, por ora, o parágrafo acima ficará sendo aperitivo – ou, como nas salas de cinema, um trailer...