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O poeta e seus diários

No escritório, um atento observador da vida

Durante muitos anos, Carlos Drummond de Andrade cultivou o hábito de escrever diário. Difícil, hoje, saber quando foi que começou a fazê-lo, pois seus cadernos não chegaram a nós. O poeta entrava na última década de sua vida quando decidiu destruí-los.

Homem metódico, valeu-se do que dizia ser sua “maneira particular de rasgar”, ritual que a filha única, Maria Julieta Drummond de Andrade, revelou e descreveu na entrevista que com ele fez para O Globo, em janeiro de 1984:

“Rasgar papéis é também outro hobby do poeta, que todas as noites pica minuciosamente os que abarrotam a cesta de seu escritório, depois de dobrar cada folha em duas e em quatro partes, para subdividi-la em sucessivas partes menores. Tudo isso é envolto em jornal e atado com barbante.” Isso porque, segundo o poeta, era preciso “fazer embrulhos corretos, com todas as especificações necessárias a um bom pacote”, de modo a bem cumprir as indicações do síndico do edifício, para que o lixo não fosse simplesmente atirado na lixeira.

Mas por que, afinal, Drummond decidiu sacrificar seus diários? Ele conta na mesma entrevista:

 “São anotações que fui fazendo ao longo da vida, e que preferi destruir em parte, conservando apenas o que não era registro imediato de situações cotidianas, mas impressão de fatos políticos ou lembranças de amigos escritores, que poderiam contribuir para o conhecimento de nossa história literária. Rasguei o resto (...) ao descobrir como é absurdo o sujeito ficar passando para o papel, numa espécie de masturbação, o que está vendo e sentindo, como se ignorasse isso.”

Nem tudo, felizmente, sucumbiu à implacável tesoura do poeta. Páginas rigorosamente selecionadas viriam a compor, em 1985, o livro O Observador no Escritório, que cobre o período de 1943 a 1977.

Primeiro numa casa na rua Joaquim Nabuco, 81, depois de seu sétimo andar na Conselheiro Lafaiete, 60, sempre no Posto 6, em Copacabana, o atento observador Carlos Drummond de Andrade vê morrer seu grande mestre, Mário de Andrade, e cair a ditadura do Estado Novo. Participa, ao lado de Vinicius de Moraes, de uma divertida sessão espírita no apartamento do jovem amigo Fernando Sabino. Registra historietas divertidas, escapole para entrevistar o líder comunista Luís Carlos Prestes na cadeia, nos estertores do Estado Novo, e, em 1947, para participar de um conflagrado congresso de escritores em Belo Horizonte. Entre outubro de 1960 e agosto do ano seguinte, elege e vê renunciar Jânio Quadros. No fio do tempo, sofre a perda de pessoas queridas e mansamente se deixa levar velhice adentro.

Homem recatado e discreto, o poeta se permite registrar aqui e ali, nessa seleta de anotações, umas tantas inocentes e saborosas miudezas de cotidiano – entre elas, o seu trato afetuoso com animais de estimação: o cão Puck, que, já idoso, a certa altura foi preciso sacrificar, e os gatos Inácio, Crispim e Garrincha.

Na derradeira anotação de O Observatório no Escritório, em 18 de outubro de 1977, às vésperas de completar 75 anos, o poeta fala da leitura, em madrugada insone, de cartas do pai, Carlos de Paula Andrade, perdido quase meio século antes.